(ou por que tentar entender demais às vezes nos afasta do que sentimos)
Há dias em que a gente tenta resolver tudo.
Tomar uma decisão, respirar fundo, mudar de rotina, qualquer coisa que traga a sensação de estar no comando outra vez.
Mas, quanto mais tentamos controlar, mais nos afastamos do que realmente nos move.
Em Satiemania (1978), uma mulher toma uma pílula e, de repente, se divide ao meio.
A imagem é estranha, mas familiar. Quantas vezes a gente também tenta “tomar algo” uma decisão, vive uma distração, uma explicação, só para calar o que incomoda?
A mulher do filme quer apagar o mal-estar. Busca alívio rápido, mas o que encontra é o oposto: vê-se cindida, exposta, duplicada.
Essa divisão fala daquilo que a psicanálise reconhece como parte de ser humano, a falta, o desencontro, o não saber o que fazer com o próprio desejo.
O obsessivo, especialmente, tenta lidar com isso pela via do pensamento. Analisa, planeja, adia. Quer entender tudo para não sentir demais, para decidir com mais garantias.
Mas, quando o pensamento vira muro, o corpo começa a falar por conta própria.
O controle, então, adoece.
A pílula no filme simboliza essa fantasia de cura pela razão.
Só que o efeito é outro: o sujeito se depara justamente com o que queria evitar, ou seja, a própria divisão.
E o sintoma aparece, não como erro, mas como tentativa de costurar o que se rompeu.
Cecília Meireles (1964), em seu poema Ou isto ou aquilo, fala dessa indecisão tão humana entre o querer e o temer, o mesmo movimento que vemos na tentativa de eliminar a falta.
“não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo”.
Essa indecisão tão humana, entre um e outro, entre querer e temer, entre ir e ficar,
é o espaço onde o sintoma vive: tentando unir o que a razão separa,
e lembrando que viver é sempre perder um pedaço para poder seguir.
Talvez seja aí, nesse intervalo entre uma escolha e outra, que o inconsciente se faz ouvir.
O sintoma não pede conserto, pede escuta.
É o modo como o inconsciente insiste, mesmo quando a consciência já desistiu.
Às vezes fala pelo corpo, outras pelo silêncio.
Essa mesma ideia também aparece no conto Manawee, de Clarissa Pinkola Estés.
Um homem quer conquistar duas irmãs gêmeas, mas se perde tentando descobrir o nome verdadeiro delas.
O conto fala da dificuldade de lidar com o que é duplo dentro de nós, o racional e o instintivo, o conhecido e o misterioso.
Manawee quer saber, quer dominar.
Mas só quando ele para de tentar controlar e começa a observar, algo nele muda.
O mistério, antes incômodo, passa a ser caminho.
Em Satiemania, a mulher também se revela inteira quando aceita a própria divisão.
A dor não desaparece, mas encontra sentido.
É o mesmo gesto que a psicanálise propõe: transformar o sintoma em palavra e deixar que algo novo surja daí.
A música de Erik Satie, que dá nome ao filme, repete-se quase hipnoticamente.
Como o pensamento obsessivo que gira tentando conter o que escapa.
Mas cada repetição traz um leve desvio, um respiro novo.
E é nesse desvio que a vida reaparece.
Quem nunca se viu repetindo algo que jurou não fazer mais?
Às vezes não é teimosia, dedo podre ou coisa parecida, é o inconsciente tentando ser ouvido.
“Às vezes, quando tentamos apagar a dor, é ela quem acende a luz.”
Assistir ao curta Satiemania, ler a poesia da Cecília Meireles “isto ou aquilo” e ou ler o Conto do Manawe, é uma boa forma de refletir sobre os impasses que vivemos.
Não é preciso entender tudo, basta deixar-se tocar.
Talvez você se reconheça em algum detalhe e faça suas associações: na repetição, na pausa, na tentativa de controlar o que escapa.
Boa leitura, com carinho, Fabi.
Referências
GAŠPAROVIĆ, Zdenko. Satiemania. Zagreb: Zagreb Film, 1978. Curta-metragem de animação, 14 min. ( 7 min 25 s)
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


